元描述: Explore a fascinante história do Pansera Cassino RS, de seu apogeu como cassino da querência à sua transformação em marco cultural. Descubra arquitetura, personalidades e o legado que encanta Rio Grande.
Da Querência ao Pansera Cassino RS: Uma Jornada pela História e Glória do Entretenimento Gaúcho
No coração do Rio Grande do Sul, mais precisamente em Sant’Ana do Livramento, fronteira com o Uruguai, repousa uma edificação que é muito mais que concreto e tijolos. É um testemunho silencioso de uma era de glamour, efervescência cultural e mudanças sociais. Conhecido popularmente como Pansera Cassino RS, o antigo Cassino da Querência representa um capítulo dourado na história do estado, um período onde a roleta girava ao som de orquestras e a elite brasileira e internacional se encontrava em solo gaúcho. Este artigo mergulha fundo na trajetória deste ícone, desde sua concepção como símbolo de sofisticação até seu status atual como patrimônio cultural, explorando sua arquitetura, as personalidades que por ali passaram e o debate sobre seu legado. A expressão “da querência”, típica do linguajar gaúcho que denota afeto pelo lugar de origem, torna-se aqui profundamente simbólica, unindo o sentimento local a um empreendimento de projeção internacional.
O Contexto Histórico: A Era de Ouro dos Cassinos no Brasil
Para entender a magnitude do Pansera Cassino, é crucial voltar aos anos 1930 e 1940. Getúlio Vargas, na tentativa de controlar o jogo e arrecadar fundos, legalizou e regulamentou os cassinos no Brasil através de um decreto-lei. Rapidamente, estabelecimentos luxuosos surgiram nas principais capitais e em cidades estratégicas, transformando-se em polos de atração turística e vida noturna. Sant’Ana do Livramento, pela sua posição fronteiriça e forte conexão com a cultura platina, apresentava um terreno fértil. A cidade já vivia um clima cosmopolita, e a instalação de um cassino era o próximo passo lógico para consolidá-la como destino de entretenimento da região sul. Neste cenário, surgiu a figura do empresário italiano naturalizado brasileiro, Attilio Pansera, visionário responsável por erguer não apenas um cassino, mas um complexo de entretenimento sem paralelos. O termo “cassino RS” passa a ser sinônimo deste empreendimento específico, destacando-o no cenário estadual.
- Decreto-lei de 1933: Marco legal que permitiu a exploração do jogo, criando uma nova fonte de receita para os estados e municípios.
- Estratégia geográfica: Sant’Ana do Livramento era um ponto de confluência entre brasileiros, uruguaios e argentinos, ampliando naturalmente seu público-alvo.
- Modelo de negócio integrado: Os cassinos da época não se limitavam às mesas de jogo; incluíam restaurantes finos, salões de baile, teatros e hotéis, funcionando como verdadeiras cidades do lazer.
Attilio Pansera: O Visionário por Trás do Empreendimento
Não se pode contar a história do cassino sem falar de seu idealizador. Attilio Pansera era um empreendedor com trânsito nas altas esferas sociais e políticas. Sua visão era clara: criar em Livramento o cassino mais moderno, luxuoso e bem frequentado do sul do Brasil. Investiu uma fortuna pessoal, estimada por historiadores locais em valores equivalentes a vários milhões de dólares atuais, para trazer materiais de construção da Europa, mobiliário de alto padrão e uma equipe de gerência experiente. Pansera não media esforços para garantir a excelência. Conta-se, em relatos do arquivo histórico municipal, que ele pessoalmente supervisionava a recepção de convidados ilustres, garantindo que cada detalhe, do champanhe servido à qualidade do som da orquestra, fosse impecável. Seu nome, posteriormente associado ao local de forma indelével, transformou “Pansera Cassino” em uma marca de prestígio e qualidade.
Arquitetura e Design: Um Palácio do Entretenimento
O edifício do Pansera Cassino RS é um exemplar notável da arquitetura eclética com fortes influências art déco, estilo em voga na época que simbolizava modernidade e luxo. Sua fachada imponente, com linhas geométricas e elementos decorativos elaborados, anunciava a grandiosidade do interior. Ao adentrar, os frequentistas deparavam-se com um saguão monumental com mármores italianos, lustres de cristal da Boêmia e escadarias majestosas. O salão principal do jogo, com seu pé-direito alto, abrigava mesas de roleta, bacará e blackjack, além de caça-níqueis (máquinas caça-níqueis). A acústica era cuidadosamente planejada para abrigar a orquestra permanente, que tocava desde clássicos até os sucessos jazzísticos e tangos, atendendo ao gosto diversificado da clientela internacional. Esse cuidado com o ambiente criava uma experiência sensorial completa, onde o ato de jogar era apenas uma parte do ritual social.
A Vida no Cassino: Glamour, Cultura e Personalidades
O Cassino da Querência, ou Pansera Cassino, rapidamente se tornou o point da alta sociedade. Suas mesas eram frequentadas por empresários, políticos, diplomatas e artistas. Relatos de jornais da época, como o “Correio do Povo” e “Diário de Notícias”, noticiavam a presença de figuras como o jogador de futebol uruguaio Obdulio Varela, em passagem pela fronteira, e de políticos influentes do cenário nacional. Mas o cassino ia além do jogo. Seu teatro recebia espetáculos de companhias nacionais e estrangeiras, desde peças teatrais até shows de cantores famosos. O restaurante, com chefes trazidos de São Paulo e até da Europa, oferecia uma gastronomia refinada. Era um espaço onde se fechavam negócios, se consolidavam alianças políticas e se vivia intensamente a noite. Esse ecossistema fez do local muito mais que um “cassino no RS”; foi um agente transformador da dinâmica social e econômica da cidade por quase duas décadas.
- Programação cultural diversificada: Bailes de carnaval, recitais de piano, peças de teatro e exposições de arte compunham o calendário fixo.
- Impacto econômico local: Gerou centenas de empregos diretos (croupiers, garçons, músicos, seguranças) e indiretos (fornecedores, hotelaria, transporte), aquecendo o comércio de Livramento.
- Rede de contatos: O ambiente funcionava como um clube social informal, onde as elites regionais e internacionais se misturavam, influenciando os rumos políticos e econômicos da fronteira.
O Fim de uma Era: A Proibição do Jogo e o Declínio
O auge do Pansera Cassino RS, assim como o de todos os cassinos brasileiros, foi interrompido bruscamente em 30 de abril de 1946. Um decreto do presidente Eurico Gaspar Dutra, influenciado por pressões de setores conservadores e religiosos, proibiu o jogo em todo o território nacional. O fechamento foi um duro golpe para a economia de cidades que tinham no setor sua principal atividade. Da noite para o dia, o movimento intenso do Cassino da Querência cessou. Attilio Pansera tentou adaptar o espaço, transformando parte dele em um hotel e casa de eventos, mas o esplendor original nunca mais foi recuperado. O edifício, sem a fonte de renda principal, entrou em um lento processo de degradação. Esse período marca a transição do local de um centro de entretenimento ativo para um monumento histórico, começando sua jornada “da querência” afetiva para a memória coletiva.
O Legado e a Preservação: Do Abandono ao Reconhecimento Patrimonial
Nas décadas seguintes, o antigo Pansera Cassino viveu períodos de abandono e usos esparsos, que colocaram em risco sua estrutura física. No entanto, sua importância histórica e arquitetônica nunca foi esquecida pela comunidade livramentense. A partir dos anos 1990, movimentos liderados por historiadores, arquitetos e associações culturais começaram a pressionar pelo seu tombamento. Estudos detalhados, como o realizado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado (IPHAE), documentaram cada elemento significativo do prédio. Finalmente, após um longo processo, o antigo cassino foi reconhecido como patrimônio cultural do Rio Grande do Sul. Esse status é crucial, pois impede demolições e alterações radicais, garantindo que futuras intervenções respeitem sua integridade histórica. O debate agora gira em torno de qual o melhor uso para o espaço: um centro cultural, um museu interativo da história da fronteira, ou um complexo hoteleiro que dialogue com seu passado. Esse diálogo entre passado e futuro é o novo capítulo da saga do “cassino RS” mais famoso.
Pansera Cassino na Atualidade: Turismo, Memória e Futuro
Hoje, o edifício do Pansera Cassino é um ponto obrigatório no roteiro de quem visita Sant’Ana do Livramento. Mesmo sem o ruído das fichas e da música ao vivo, suas paredes emanam história. Projetos de visitação guiada, organizados pela secretaria municipal de turismo em parceria com universidades, contam sua trajetória para estudantes e turistas. A prefeitura local, em edital recente de 2023, sinalizou a busca por parcerias público-privadas para uma revitalização completa, com um investimento estimado em R$ 15 milhões, visando transformá-lo em um polo cultural e gastronômico. Esse potencial é enorme, pois alia a atração histórica a uma nova oferta de experiências. A narrativa “da querência” é resgatada, não mais associada ao jogo, mas ao pertencimento, à identidade cultural gaúcha e à valorização de uma memória que é coletiva. O Pansera Cassino RS se reinventa, mostrando que edifícios históricos, quando preservados, são ativos dinâmicos para o desenvolvimento local.
Perguntas Frequentes
P: Onde ficava exatamente o Pansera Cassino RS e ainda é possível visitá-lo?
R: O Pansera Cassino estava localizado na Avenida Tamandaré, no centro de Sant’Ana do Livramento, RS. Sim, é possível visitar o exterior do prédio, que é um marco na cidade. Visitas internas guiadas ocorrem esporadicamente através de projetos culturais da prefeitura ou em eventos especiais como a Semana do Patrimônio. Recomenda-se contatar a Secretaria de Turismo e Cultura de Livramento para informações sobre agendamento.
P: Por que o cassino foi fechado se era tão lucrativo e popular?
R: O fechamento não foi uma decisão local ou estadual, mas federal. O presidente Eurico Dutra, atendendo a uma campanha moralizadora de setores da sociedade e da Igreja Católica que associavam o jogo à corrupção e à degradação moral, assinou o decreto que baniu os cassinos em todo o Brasil em 1946. A proibição foi abrupta e afetou dezenas de estabelecimentos pelo país.
P: Attilio Pansera era o único dono do cassino?
R: Embora levasse seu nome, é provável que o empreendimento tivesse outros investidores ou sócios silenciosos, uma prática comum em negócios de grande porte. No entanto, Attilio Pansera era a figura pública, o gestor principal e o grande responsável pela concepção e operação do cassino, sendo sua imagem totalmente vinculada ao sucesso do local.
P: Existe algum outro cassino histórico semelhante no Rio Grande do Sul?
R: Sim. Outro exemplo notável era o Cassino Atlântico, em Tramandaí, na costa norte do estado. Também construído na mesma era, era frequentado pela elite de Porto Alegre e chegou a ter um hotel luxuoso. Após a proibição, seguiu um destino similar de abandono e posterior reconhecimento patrimonial, embora em um contexto litorâneo diferente do contexto fronteiriço do Pansera.
P: Qual a diferença entre “Cassino da Querência” e “Pansera Cassino”?
R: São nomes para o mesmo lugar. “Cassino da Querência” é o nome popular, afetivo, que remete ao sentimento gaúcho de apego à terra. “Pansera Cassino” é a denominação oficial, derivada do sobrenome de seu fundador e idealizador, Attilio Pansera. Ambos os termos são usados de forma intercambiável para se referir ao histórico empreendimento de Sant’Ana do Livramento.
Conclusão: Mais que um Cassino, um Símbolo da Identidade Gaúcha
A trajetória do Pansera Cassino RS é um microcosmo da história social e econômica do Rio Grande do Sul no século XX. Da ousadia de um imigrante visionário ao apogeu como templo do entretenimento sofisticado, do impacto do decreto federal ao lento caminho rumo à preservação, cada fase revela aspectos da cultura e das transformações do estado. Hoje, seu valor transcende em muito a memória do jogo. Ele se ergue como um monumento à capacidade empreendedora, à vida cultural pulsante da fronteira e à resiliência da memória coletiva. Preservar o Pansera Cassino não é apenas manter um prédio antigo; é honrar uma narrativa complexa que faz parte da identidade gaúcha. Para autoridades, o desafio é encontrar um uso sustentável que revitalize o espaço. Para cidadãos e turistas, a oportunidade é de conhecer e se emocionar com essa história. Que o legado “da querência” ao Pansera Cassino RS continue a inspirar, ensinar e encantar as futuras gerações, mantendo viva a chama de um dos mais fascinantes capítulos do entretenimento no sul do Brasil.
